terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vá ao teatro,

mas não me convide. Não é a toa que as pessoas adoram jogar essa frase na nossa cara quando as convidamos para assistirem uma peça. Eu já falei aqui e repito, pessoas de teatro podem ser muito inconvenientes.

Outro dia a Marina, minha irmã caçula, mais conhecida como O Blim, por motivos que não tenho tempo de explicar agora, enfim, O Blim estava atravessando a Avenida Paulista para ir ao cinema.

Era uma tarde qualquer e minha irmã, que descobriu recentemente que a faculdade que ela esta fazendo não é exatamente o que ela quer fazer, estava matando aula. Um pouco sensível, talvez uma TPM. O Blim atravessou correndo o farol do Conjunto Nacional para não ficar presa na ilha e estava prestes a entrar no Bristol quando ouviu pelas costas a frase que tenho pavor de ouvir.

-Gosta de teatro?

O Blim gentilmente respondeu.
-Gosto. Tenho até uma irmã atriz.
-Que ótimo, então não quer colaborar com a nossa campanha do
Vá ao teatro?

O moço tanto fez que convenceu Marina a preencher uma ficha e desembolsar trinta e cinco reais para assinar a tal da revista. Quando o Blim pegou o formulário nas mãos, já sabia que estava se metendo numa roubada, mas não teve coragem de pular fora, porque pelo entusiasmo do sujeito ela devia ser a única do dia a cair naquela conversa. Aquela seria a boa ação do semestre, só que a coisa piorou quando ela descobriu que só tinha um cartão de débito na carteira.

-E agora, acho que vamos ter que deixar para uma próxima...


Mas o moço rapidamente tirou uma solução da cartola.

-Vamos fazer o seguinte, eu e meu amigo tamo com fome, a senhora acompanha a gente no Mac, paga nosso lanche e a gente deposita depois o seu dinheiro com a ficha no banco.
-Ah tá, então vamos.


Naquela altura, realmente, nada poderia reverter o absurdo da situação. O Blim entrou na fila e eles se fartaram com tudo que tinham direito. Dos lanches aos Nuggets, dos sundaes às fritas. A conta deu trinta e oito reais.

-A senhora não se incomoda de pagar três reais a mais, né?
-Imagina, tô aqui mesmo.


Fiquei chocada com a cara de pau deles e ela me disse depois: "Martha, eu tava achando aquilo tão surreal, já tinha perdido meu cinema, que resolvi que era aquilo mesmo que tava acontecendo e eu não ia contrariar."

Depois ela me mostrou os benefícios do negócio que tinha feito; ingressos para "As Encalhadas", peças espíritas e outras comédias ordinárias.

-Acho que vou tentar "As Encalhadas", da Bibi Ferreira, o que você acha?
-Sei lá Blim, acho que é uma questão de honra, agora você vai ao teatro.
-Tem também um desconto para comer no Piolim, conhece esse lugar.
-Ah legal, conheço, de quanto é o desconto, cinquenta porcento?
-Não, dez.
-É Marina, realmente, você foi uma presa fácil.


Lembrei que dez anos atrás, sem querer e tentando ajudar uma moça a conseguir bolsa na faculdade, fiz uma assinatura de um ano da revista Gula. É a velha história, "me passa o número do seu cartão, só para a gente te dar um brinde" e quando você vê, está dividindo o prejuízo em doze parcelas. Toda vez que aquela revista chegava eu ficava puta por ter sido enganada e principalmente por estar de regime e não poder usufruir das receitas.

Só espero que O Blim não fique com o mesmo sentimento em relação ao teatro. Prometo que te dou convite para a próxima, tá?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rehab

É impressionante como acompanhar uma novela pode fazer com que você compreenda e participe de conversas para as quais nunca foi chamada antes.

Faz três anos que moro sozinha, dois deles sem televisão. Eu tinha uma antena que comprei na loja de construção aqui do bairro, cheguei a colocar bombril na ponta dela, mas a imagem nunca deixou de ser dupla. Então eu nunca mais tinha visto tv e vivia bem assim. Até o belo dia que liguei para resolver um problema na internet e a moça me convenceu de que eu estaria fazendo um excelente negócio se adquirisse o Combo Triplo.

No começo eles te dão todos os canais para você pegar gosto, depois vão tirando, aos poucos, um telecine aqui, uma gnt ali, e quando você vê, está apenas com o Animal Planet e a Universal pegando, já que o meu Combo é dos mais vagabundos. Isso quer dizer que posso escolher entre o Law and Order ou os programas de redecoração de casas de casais em crise.

Eu acabei descobrindo o poder analgésico, desinflamatório e aparentemente adstringente das novelas. Sim, eu deito no sofá, fecho as cortinas, ligo a TV e me torno, durante algumas horas uma espécie de ameba, esponja marítima, uma cadeia de aminoácidos primitivos. O mundo vai se distanciando, o corpo amolecendo e aquela voz padrão dos atores e locutores da Rede Globo vai agindo como uma espécie de mantra no meu cérebro.

No começo tudo bem, eu pensei, porque se existe no mundo alguma coisa que faça desacelerar o meu pensamento por alguns instantes e não cause danos irreversíveis nos meus neurônios, por que não fazer uso dela? Acontece que com essa desculpa, "Preciso descansar a cabeça", eu me viciei. Quando vi, estava assistindo o fim da novela das seis, o meio da das sete e a das oito inteirinha, inclusive comerciais. Claro, não é toda vez que estou em casa dando sopa nesse horário, porque afinal, apesar do meu novo vício, continuo sendo uma moça muito trabalhadora.

Mas eu não tenho certeza se quero realmente entender e fazer parte do diálogo da maioria. É que quando você acompanha uma novela, percebe que aqueles nomes que as pessoas viviam falando no elevador, na aula de ginástica, no balcão da padaria, nomes como Helena, Marcos, Luciana, Tereza, não se referiam a parentes ou amigos das pessoas que os pronunciavam, você descobre, que aqueles nomes todos sempre foram nomes dos personagens das novelas que você nunca assistiu. Só que agora você assiste, e pior, você agora não só entende o que as pessoas estão falando, como também opina, defende um, xinga outro e descobre que na verdade, o público não quer ser surpreendido, já que as revistas especializadas contam quase a novela toda antes dela começar. O público quer virar uma ameba depois do trabalho e ter assunto para o dia seguinte, basicamente isso. Não pega bem , eu sei, tornar pública a condição na qual me encontro, é horrível mesmo, fico olhando para os meus livros e pedindo que eles me resgatem dessa areia movediça que é a tele-dramaturgia. Espero ansiosa que eles me lancem um pedaço de cabide ou corda na qual eu possa me segurar, e assim que isso acontecer, juro, caio fora dessa lama e volto a não ter assunto com as ascensoristas.



(Eu e meus livros, agora empoeirados.)

sábado, 14 de novembro de 2009

a vista daqui, que a gente tem de lá

Perto do fim do ano parece que uma ressaca emenda na outra. Ressaca do álcool, do apagão, do calor, das notícias. Por isso decidi viajar e fugir das dezenas de festas que insistem em acontecer sempre que eu resolvo sair da cidade. Eu vou mesmo assim, acumular uns créditos para as futuras ressacas, (que ando em débito comigo mesma) e ver se a distância, São Paulo parece menos espinhosa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

É uma locução, mas parece um poema e

fazia tempo que eu não via um tão bonito. Deus, tudo bem, se eu não puder fazer todas coisas que faço tão bem quanto o jogador, que eu pelo menos faça com a emoção deste locutor.

relato radiofônico de Victor Hugo Morales, copa do México de 86

Lá vai passar para Diego
aí a tem Maradona
dois o marcam
pisa na bola Maradona
arranca pela direita o gênio do futebol mundial
e deixa os adversários para trás
e vai passar para Burruchaga
sempre Maradona
gênio gênio gênio
ta ta ta ta
gooool goool
quero chorar
Deus santo viva o futebol
golaaaço
diegoool
Maradona é para chorar perdoem-me
Maradona, em uma corrida memorável
na jogada de todos os tempos
barrilete cósmico
de qual planeta vem?
para deixar no caminho tanto inglês
para que o país seja um punho apertado
gritando por Argentina
Argentina 2 Inglaterra 0
diegol diegol
Diego Armando Maradona
obrigada Deus pelo futebol, por Maradona
por estas lágrimas
por este Argentina 2 Inglaterra 0

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

se você me ama, por que não se concentra?


foto de Carlos Bozelli

Não, não é um recado. É que hoje fui ver "Pixo" do João Wainer e Roberto P. Oliveira e lembrei desse muro que pixei com o poema da Ana Cristina Cesar. Ideia da Fernanda, que gritava em plenos pulmões "Corta! porque junto na interrogação, erro crasso da língua portuguesa, Martha!". E lá ia eu com a lata de tinta branca, repintar o muro pela terceira vez. Eu sabia disso, sabia o poema de cor, das regras gramaticais, mas na hora saía errado. O sol rebatendo no branco do muro, o nervoso, a válvula emperrada do spray, o take único. Nunca diga para um ator que o take é único, melhor falar que é ensaio que ele vai acertar. Nesse dia descobri que é muito difícil pixar um muro, pixar com categoria. Hoje, assistindo o filme, descobri outras coisas. Vale a pena ver, é um puta filme triste, bonito, vivo, você certamente nunca mais vai olhar uma pixação com os mesmos olhos. Anarquia era só uma palavra a léguas de distância e eu lembrei porque só consegui pixar direito aquele poema na hora em que a Fernanda disse "Abre o quadro Edinho, a gente tá prendendo ela..."

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

meu aniversário

Dizem que é a mão que denuncia nossa idade, a cara da mulher pode estar linda, o corpo enxuto, mas se você olhar para as mãos, vai saber a verdade. Na véspera de completar vinte e nove anos, resolvi olhar para as minhas.
É quase imperceptível, nenhuma mancha, vinco, nada parecido. É mais como se ela estivesse um pouco mais altiva, menos falastrona, o tempo. Eu sempre achei bobagem quando minhas amigas diziam, quando você chegar perto dos trinta, vai entender. Não estou entendendo nada muito bem, na verdade, acho que melhorei com a idade. No colégio eu era só uma menina extrovertida, que gostava de poesia, era meio amiga de todo mundo, meio sem turma, meio cdf, pecando na matemática, um pouco nerd, talvez. Quando meus pais se separaram eu caí no mundo. Foi uma queda desajeitada, comecei a fazer teatro profissional quando a maioria dos meus colegas nem sabia direito qual vestibular prestar, faltava nos eventos escolares para ensaiar e caía na balada. Era colégio de manhã, Célia-Helena fim de tarde-noite e a noite madrugada adentro. Nem sei como aguentei, minhas notas caíram, eu comprei um dicionário mundial de citações para dar conta das redações, adquiri olheiras, parei com os esportes, lia sem parar e me apaixonava pelos homens errados. Lembro que o Marcelo Paiva foi dar uma palestra na escola e eu me apaixonei por ele. Fiz um pedido de namoro, mas ele não aceitou, preferiu a Marina, minha amiga. Agora somos bons amigos e rimos do episódio. Como eu disse, acho que o tempo é meu aliado, com dez anos olhava aquelas meninas populares jogando handball como profissionais e sabia que era por pouco tempo que eu ia continuar fugindo da bola, sabia que ia ser por outro caminho. Naquela época eu tinha a impressão de que tinham me colocado na quadra errada, com as pessoas erradas. Depois encontrei o teatro, e achei que era um bom lugar para fixar residência no mundo, mas aos poucos, aconteceu de tudo ir ficando apertado e eu passei a ir atrás de outras vistas. Então acabei sentindo que estava em muitos cantos e talvez em canto algum. Hoje decidi que não existem lugares, mas onde quer que eu esteja, tento ser a melhor companhia para mim mesma e para minhas mãos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

fim de noite



Esta foto é um tiro no pé, eu sei, mas quando a festa é boa, o fim de noite corre o risco de ser na sarjeta. Descalça.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

vai ser legal!

É uma festa para arrecadar fundos para a peça, e de quebra, é meu aniversário. A peça é do Caco Galhardo, a direção da Fernanda D Umbra e eu produzo e atuo. A música vai ser boa.

Até já.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

DER EDUCATOR

Depois da novela japonesa, foi a coisa mais trash que já fiz diante das câmeras.


video

ps: trash é bom.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

só uma lista

-vinho barato dá dor de cabeça
-champanhe barata dá dor de cabeça
-misturar marca de cerveja dá dor de cabeça
-produtos light engordam
-chocolate suíço tem muita manteiga
-ninguém escapa das oralidades
-nem dos clichês
-gente atrasada nunca muda
-o tamanho da insegurança é proporcional ao da beleza
-meus pais nunca vão se entender
-não existe ressaca a toa
-o barato sai caro
-a Rebouças está sempre engarrafada
-no jantar de estreia de uma peça só se fala da peça
-eles sempre cobram a mais na conta de telefone
-eles podem cortar sua luz sem te avisar
-eu não consigo mentir nem para o cara do seguro
-eu não devo falar ao telefone dirigindo
-poesia ruim constrange
-poesia boa aplaca
-o poema feito em sua homenagem não se avalia
-fumar faz mal a saúde
-torpedos de amor somem do aparelho junto com as mensagens da operadora
-eu sempre pego a ponte errada na Marginal
-sei que estou prestes a cometer um erro segundos antes de cometê-lo
-romantismo não tem cura
-evitar consultar o saldo bancário só piora a situação
-uma faxina bem feita não resiste ao pó da cidade
-pensar na próxima cena, durante a cena, é a pior vala onde se pode cair
-pensar na cena que não foi boa, durante a cena, é na verdade a pior
-não importa o quanto isso incomode alguns, vou continuar sublinhando meus livros a caneta
-orquídeas só devem ser regadas a cada sete dias
-arruda todos
-uma coleção de caixinhas, é uma coleção de vazios
-rezar antes de sair da cama
-cortar as unhas do gato antes que elas cortem as almofadas
-não escrever no blog alcoolizada
-não mandar e-mails de madrugada
-fechar as gavetas antes de dormir
-descongelar a geladeira uma vez ao mês
-guardar comprovantes de residência de dois anos atrás
-não deixar cds originais no carro
-anotar o número do pis em algum lugar
-ligar para minhas avós
-olhar a janela de casa de fora da casa
-ir para cama no primeiro momento de sono
-não pedir conselhos sobre o mesmo assunto para mais de duas pessoas
-não responder ao taxista se é aqui que você mora
-sempre ter uma folha de cheque na carteira
-o rodízio do carro é na segunda
-eu devia ter feito aquele back-up

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

para onde?

É interessante ver a cidade mudando, na sua fuça, como um bicho de estimação crescendo entre aqueles que você ama. Essa mãe infiel, que muda de cara toda vez que você se distrai. Primeiro foi o Vegas, acho, depois o Inferno , outras casas noturnas, lugares descolados para se comer e quando a gente viu, a antiga Vila Madalena, na época em que era legal ir à Vila Madalena, mudou-se para a rua Augusta, lado centro. A mesma rua que, nos tempos da minha mãe, era um lugar chiquérrimo para se desfilar os cabelos alisados com a toca noturna. A rua mais democrática do lado Jardins, a rua que não tenho dúvidas em pegar se tenho de voltar a pé na madrugada, a rua para onde meus amigos solteiros estão se mudando. Até onde sei, as putas saíram da zona para a boca e da boca, (a boca ainda existe?) para alguns lugares, inclusive a rua Augusta. E agora todos convivem harmoniosamente: quem quer balada pesada, as moças de vida fácil, os artistas que tocam no Studio SP, os salões de beleza onde você vê todo tipo de gente fazendo a unha, as academias vinte e quatro horas, os puteiros, saunas, livrarias, meus amigos e eu no bar Bahia, os atores habitués do Piolim, os playboys, teatros, sinucas ou apenas andarilhos de passagem à Praça Roosevelt. Enfim, de tudo um pouco, um pouco de tudo. É uma delícia passear por lá, é como tomar uma brisa em Copacabana. Alguns puteiros desapareceram, viraram bares de moderninhos e o trânsito continua ruim. Eu fiquei pensando, até quando? Posso estar enganada, muitos devem manjar muito mais desse assunto do que eu, e só me arrisco a dizer (porque estou vendo a coisa de perto) que este parece ser um período de transição, ( bom, claro, todo período é uma transição), enfim, parece que a rua Augusta vai voltar a ser um endereço exclusivamente frequentado por uma classe social abastada. Será? ou será que é justamente por causa dessa "diversidade", dessa fauna excêntrica misturada que ela vem chamando a atenção daquelas pessoas que até poucos anos tinham medo de ir ao centro depois que o sol se pusesse. E se isso acontecer, quem vive e trabalha por lá, vai para onde? A longo prazo, é possível a convivência desses universos tão diferentes? Quando eu era pequena e passava as férias na fazenda, ouvi uma vez algum tio dizer para o outro que não era bom arrendar a fazenda para plantação de cana. Eu perguntei por que e ele me explicou que a cana é um tipo de plantação que suga tudo da terra até não sobrar mais nada, até a terra falir, e que depois, são necessários muitos anos para ela voltar a ser produtiva. É um pouco essa imagem que eu tenho da gente no mundo, a gente vai tomando conta de um lugar, uma área, vai sugando tudo que tem de bom alí até esgotar. Daí a gente procura um lugar novo. Mas acho que sempre foi assim, não? Desde os tempos de nossos ancestrais nômades. A diferença é que no campo, depois da colheita vem a queimada, que deixa tudo com cara de nada e na cidade vem o que a gente chama de decadência, depois a xêpa.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


( Eu, Maria Manoella, Caca Manica, Erika Puga, Lu Caruso e os homens, Laerte Mello e Batata em foto de Renato parada)

Tem muita gente por aí com quem eu ainda quero trabalhar e tem gente com quem eu quero sempre continuar trabalhando. Uma dessas pessoas é o Mário, o Bortolotto. O Mário não é um diretor de processo, como ele mesmo costuma dizer. Por isso tem muita gente que, equivocadamente, acha que ele não é muito de dirigir ator. É verdade que se você propuser um ensaio-laboratório, exercícios de improvisação com o texto que ele escreveu cirurgicamente, adaptou ou simplesmente está encenando, ou ainda, se você quiser propor um jogo de expressão corporal, qualquer atividade do gênero ou dar um grito de guerra antes do espetáculo, é capaz que ele te mande sair andando, gentilmente, claro. Mas tem uma coisa, entre muitas, que ele faz com maestria: te ajuda a construir a linha de pensamento do seu personagem como ninguém. E isso é raro. Não estou dizendo que todas essas outras possibilidades de trabalho que citei acima, sejam inúteis ou menores, mas diretor é como namorado, você não acha tudo em um parceiro só. Você escolhe as qualidades das quais não pode abrir mão, e no resto, você faz sua parte e tenta se garantir. Hoje a Manu me disse na coxia "Essa peça precisava de mais uma semana...", e eu respondi, "Você pode ensaiar durante um ano, que na véspera de uma estreia, uma peça sempre precisa de mais uma semana.". Não temos uma semana, aliás, temos pouco mais que 24 horas, já que amanhã, meia-noite, nos Parlapatões, estreiamos "Brutal". Ficamos por lá todas as sextas até final de novembro, neste horário, que vai me obrigar a pedir cafés duplos, fortes e entrar em cena na hora em que o resto do mundo já está na terceira latinha de cerveja. E eu vou estar sóbria e feliz. E este post todo é para dizer que venham!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

pelas ruas de Londrina


A gente estava procurando uma sorveteria, café, algo assim. Mas não havia nada na avenida que saía do hotel. Passamos por lojas de pneus, estações de tratamento de água, gráficas, escritórios e quando achávamos que se tratava de um passeio perdido, eu vi isso no chão. Voltei, parei, olhei e chamei a turma. Não tivemos dúvida, nos jogamos no asfalto na mesma hora. Quem cliquou a foto foi o Edinho e a companheira ao lado todos sabem quem é: Fernanda D'umbra. Agora resta saber quem foi. Foi você Chacal?

domingo, 20 de setembro de 2009

mind the gap

Eu sei do que estou falando, eu já passei por isso, várias vezes. Já fiz todas as dietas do mundo, já passei três dias tomando a sopa do Vigilantes do Peso, bati o recorde de colesterol na dieta do Dr. Atkins, tentei enganar meu apetite fingindo que era de batata o purê de couve-flor da dieta de South Beach, decorei a tabela de pontos, conheci todas as marcas de shakes e não foram poucos os finais de semana que passei me alimentando de cevada. Acredite, também já saltitei frente à tv com os vídeos de ginástica da Cindy Crawford em meados dos anos 90. Tudo isso funciona, mas há muito não passo por isso. A coisa chegou num ponto honesto em minha vida, o peso, medidas, espelho. Sei que outro dia fui fazer uma prova de roupa para um longa e a calça não entrou. A menina nada gentil do figurino ficou olhando para minha cara como quem diz "Você deveria ter passado suas medidas certas" e eu fiquei encarando ela como quem diz "Querida, não sei do que você está falando, sempre vesti esse número..." Não sei se por causa do assalto ou por conta de um homem que vem repetidamente me dizendo o quanto sou linda, o fato é que pareço ter engordado. E isso é um saco. Fatalmente comecei um regime e começar um regime significa pensar mais em comida do que se pensa normalmente, significa folhear com mau-humor os guias quando se passa pela parte de gastronomia, analisar descaradamente o prato de pessoas magras e voltar do mercado com sacolas de tofu, cogumelo e iogurtes cheios de aspartame. A vida é mesmo um castelinho de cartas, você ajeita de um lado e quando vê, o outro está prestes a desmoronar. Outro dia vi um documentário sobre o Chico Buarque, e em determinado momento o Tom Jobim dizia algo como "'é difícil administrar a vida, eu sou meu próprio síndico, tenho um monte de coisas para cuidar...". Claro que ele disse isso de forma mais poética, mas eu não tenho capacidade agora de repetir, só sei que por aqui, além de síndica, tenho exercido outras funções como as de zeladora, porteira, faxineira, contadora, agente e adestradora de animais, como a maioria, na verdade. Não é uma queixa, só constatação. Quando eu era criança, meus pais me diziam que eu deveria aproveitar enquanto podia, que a vida adulta seria bem mais difícil. Nunca concordei com eles, sempre achei a infância e adolescência bem mais cruéis que a fase adulta. E continuo achando. Mas às vezes me pego com saudade dos tempos em que eu não sabia o valor do condomínio ou das calorias de uma bolacha Bono. Espero que a correria dos próximos dias me ajude na empreitada: esta semana vou para Londrina fazer Ana C. e dia dois de outubro estreiamos Brutal. E vou ajeitando meu castelinho, andando de um lado para o outro com meus textos, tamancos e saindo do regime uma vez por dia. E só para reparar o exagero textual, nunca fiz a dieta do Dr. Atkins. Isso é coisa para meninos.


(e só para ninguém achar que sou uma moça muito acima do peso, aí vai uma foto bem bonita)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

valeu!

Você provavelmente pensaria a mesma coisa que eu se chegasse em casa as quatro da manhã e visse duas viaturas te esperando. Ai meu Deus o que foi que eu fiz? Tinham achado meu carro, então eu e minhas duas pernas ligamos para o seguro e fomos correndo para o local, de mini-saia mesmo. Tomamos um chá de espera da perícia durante três horas e meia e quando finalmente abriram o carro já era de manhã. Não deixaram nada dona, só isso aqui. O moço em cima do guincho tinha dois livros na mão, "Pornopopéia" do Reinaldão e o último do Chico Buarque. Arrancaram as calotas, recolheram parcimoniosamente cada cacareco que lá havia e até o lixo levaram. Mas deixaram os livros. Imagino a cena: pegaram os volumes na mão, passaram os olhos na capa e resolveram se poupar do peso extra.

Oito da manhã, um mau-humor do cão, frio nas canelas e a cara do policiais de não tô nem aí contigo, mas eu não pude deixar de formular uma frase infame com aqueles dois títulos sobreviventes: fim da epopeia, nem adianta chorar pelo leite derramado.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Hoje é seu dia de sorte, colocaram o dedo por engano na sua testa e te designaram uma grande missão. Não, não foi por engano, é com você mesmo a parada. Então, põe na sua cabeça uma coisa, você não vai lembrar de cor das coisas que te roubaram, você vai ter que começar de novo e isso nem é tão ruim vai, não há males que vem para o bem? Veja bem, talvez seja esse o caso. Agora você vai lá, põe o jeans, desce as escadas e quando chegar na padaria pede para o moço do balcão um café com leite desnatado. Se não tiver desnatado pergunta se tem em pó e se não tiver em pó, você toma puro mesmo, só com a espuma do leite. Escuta, aproveita que você tá sem fome e fica sem comer por uns dias, vai ser bom para você, jejum espiritual. Se te perguntarem alguma coisa que você não souber responder, não se aflija a toa, não há pergunta que não possa ser respondida se bem escutada. Eles vão gostar de você assim, diz não sei, ou é uma nova fase, sabe? Eles vão ficar curiosos, vão querer saber, você vai até achar que é um grande trunfo tudo isso aqui. E de fato é. Conta para eles que quer ter um filho, sei lá, que foi você que quebrou o vaso chinês com arroz tibetano, o arroz que o Dalai Lama abençoou. Mas isso também não importa mais, tem tanta coisa quebrada por aqui. Lembra do delegado te dizendo, calma moça, calma, depois você vai reescrever tudo, e muito melhor e aí vai ser um best-seller, pode crer, um best-seller. Você vai até agradecer o sujeito de cabelo carapinha...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

nada menos do que isso

coisas que se lê em época de ensaio:

"Laurence Olivier, em seus melhores dias, é o que todo mundo sempre quis dizer com a expressão "uma grande ator". Ele tem todas as cartas na mão e, na representação teatral, as figuras do baralho consistem de (a) relaxamento físico completo,(b) magnetismo físico poderoso, (c) olhos dominadores que sejam visíveis no fundo da galeria, (d) uma voz dominante que seja audível sem esforço no fundo da galeria, (e) timming soberbo, que inclua a capacidade de dar musicalidade aos versos, (f), chutzpah -a intraduzível palavra hebraica que significa uma combinação de nervos frios e atrevimento ultrajante-, e (g) a capacidade de comunicar um sentimento de perigo. São todos atributos vitais, embora a ordem de importância possa variar (o próprio Olivier considera que seus olhos são seu maior trunfo), mas o último é, sem dúvida, o mais raro. Observando-se Olivier, sente-se que, a qualquer momento, ele é capaz de fazer alguma coisa totalmente imprevisível, algo explosivo,possivelmente apocalíptico, enervante em sua nudez emocional: a pata do leão pode agredir. Não há nada de brando nesse homem."

Kenneth Tynam em "A vida como performance"

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Romit- o insaciável


(a foto é do Luiz Valcazaras e da Simone Mina)

A história é a seguinte: um belo dia fui tirar as cartas com um cigano, lá em Santo André, e para espremer e resumir bem este enredo, voltei com um gato preto a tiracolo. Romit, com t mudo no final. Sempre achei que os gatos fossem uns bichos orgulhosos, independentes e sarcásticos, e por isso mesmo pensei que ia ser legal ter um. Acontece que o Romit revelou ser um gato com alma de cão, e por que não dizer, de homem, mais carente do que um, depois de um pé na bunda. No começo achei bonitinho, ele ali, me fitando com cara de apaixonado, me seguindo pela casa, querendo entrar no chuveiro... e comecei a ceder; ele dormindo na cama de noite, em cima da minha barriga no sofá, roubando meu atum em lata, roendo meus cachecóis. Só que os bichos são como os vícios, não podem mandar na gente.

Diante da conclusão de que o Romit tem mandando mais em mim do que eu nele, resolvi, há alguns dias, que ele não dormiria mais na cama. Cansei de acordar com ele embaixo da minha lombar ou com suas patas traseiras na cara. Sabe, eu adoraria que ele fosse um daqueles gatos dos Saltimbancos, arruaceiros, sacanas e que voltasse para casa por puro interesse mesmo, só para conseguir um bom filé. A Dr. Kátia, veterinária de Romit, disse que ele já foi um garanhão, um gato de briga. Eu não sei o que aconteceu entre essa fase e a vida com o cigano em Santo André, só sei que agora, ele é um gato de apartamento, asmático, amoroso e com a orelha quebrada. E não ficou nada feliz em ser expulso do quarto na hora de dormir. Na primeira noite miou durante umas seis horas, na segunda quatro e na terceira, regrediu de leve e passou a miar cinco horas seguidas.

Agora ele não mia mais, faz, na verdade, um barulho horroroso, que é uma mistura de uivo, gorjeio e miado, e para quem ouve de fora, parece que estou tirando o couro dele. Não foram poucas as vezes que eu pensei em abrir a porta e abortar a missão. Mas toda noite eu digo, ele não vai me vencer e todo dia eu repito, só por hoje não vou abrir a porta. De fato e apesar do barulho, tenho dormido melhor e feito carinho nele nas outras horas livres do dia. Mas sinceramente não adianta, Romit é um abismo de afagos e carinhos, não importa o quanto eu me dedique a ele, ele sempre quer mais. Eu disse para a Edith, faxineira:

“É o gato mais carente do mundo.”
No que ela me respondeu:
“Será que é por que ele tá no final da vida?”
Final da vida? Meu Deus, eu nem sei a idade do meu gato.
“É Edith, sei lá, só sei que eles têm sete vidas...”
“Acha mesmo?”
“Acho.”


Tantas vidas para querer amor e ele vem me pedir tudo de uma vez, esse gato. Então, já que eu não dou conta sozinha, é o seguinte: para meus amigos, fãs de Romit, que quiserem se revezar em carinhos, a casa está aberta. Agradeço.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

JÁ?

Já teve vontade de picotar tudo que tem seu nome escrito?
já perseguiu um gato na cidade?
Já construiu um muro entre seu coração e sua cabeça
e passou os meses seguintes tendo que escalar a própria vida?
Você tem ideia do que é manter em pé seu corpo,
manter suas roupas limpas,
as contas pagas
ideias claras
e o peso sempre igual?
Já teve sua cola exposta na sala da diretora,
sua redação rabiscada no mural
e o coração ensopado de xixi?
Será que você já passou horas olhando para o telefone,
tentando reconstruir um diálogo,
para ver onde foi que errou?
já te disseram que você é a cara do seu pai
e essa foi a coisa mais esquisita que poderiam
ter dito sobre você?
Já teve medo de ser esquecido
mais rápido do que gostaria?
Sentiu a vertigem de um beijo bem dado,
teve raiva quando te mandaram ficar calmo
ou ficou calmo quando o mundo caía na sua cabeça?
Já teve certeza de que era absurdo cruzar o oceano por cima
e andar em tubos por baixo?
Já se apaixonou por uma voz no telefone
ou um rosto passando do outro lado da calçada?
Já teve a sensação de que sabia mais que todo mundo na sala
ou bem menos do que aqueles que pagaram para te ouvir?
Já deu socos imaginários em idiotas
e pensou a semana toda em alguém que,
não importa o quanto você lamente,
não te quer?
Você certamente já sonhou com os dentes moles
e a vez que voltou para escola
e era dia de prova.
Talvez você não sonhe que está nua no palco
sem saber as falas,
mas já sentiu inveja
de quem diz que sonha que está voando...
Eu já te perguntei se você colecionava
coisas vivas
ou chicletes velhos?
E se você já teve medo de ficar vesgo com o vento?
cego
surdo
paralítico
e nunca mais poder subir um lance de escadas.
Já prometeu nunca mais beber, ligar, transar sem camisinha?
usou escondido a escova de dentes alheia
e empurrou os cacos para baixo do tapete?
você já olhou para a cara de uma pessoa
e teve a sensação de que ela ia morrer em breve?
Já quis ajudar alguém sem que esse alguém soubesse?
Já negou um pedido de socorro
ou gritou até ensurdecer os deuses
mas só os cães te ouviram?
Já mudou de ideia quando a porta do avião estava aberta
e você já tinha pago pelo salto?
Eu já te falei também que penso em ter filhos,
plantar árvores
mas tenho preguiça.
Já te fizeram esperar por anos?
Você já foi numa tourada?
No Grand Canyon?
Já disse que amava alguém por piedade,
jurou pelo sangue que corria em suas veias
e passou noites em claro olhando as próprias mãos?
Já ouviu séculos uma música
sem reparar na letra?
Já reparou que algumas letras não combinam com a melodia
assim como alguns corpos não combinam com as caras?
Já percebeu que você combina comigo
e eu com você?
entende a incoerência
a importância desse fato?
Já pensou sobre o que vai fazer a respeito?
Já chegou a conclusão de que talvez seja melhor não pensar?
já te disseram que você está envelhecendo?
Já leu aquele verso que diz
que a vida é curta
para ser pequena?
Já pensou em qual filme a gente vai ver hoje a noite?
Já tirou o lixo da cozinha,
brigou com a mulher da telefônica
ouviu alguma frase boa por aí,
disse alguma que vale a pena?
Você já se olhou no espelho de madrugada
e teve vontade de cortar os cabelos
com a tesoura de unha?
Posso cortar seu cabelo?
posso dormir essa noite aí?
Posso ser a primeira pessoa para quem você vai olhar de manhã
o resto da vida?
já reparou como é estúpido
chamar a vida toda que temos pela frente
de resto?
Já quis ser um pop star,
um faraó
um cavalo selvagem?
Tem vontade de segurar na mão de alguém
e não soltar mais?
Já te disse que a coisa mais legal que existe
é isso aí
sobre dar as mãos?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

BRUTAL

Hoje começam os ensaios de "Brutal", texto e direção do Marião, comigo, Manu, Lu Caruso, Erika Puga, Cacá, Laerte Mello e Batata. Eu sempre achei esse texto meio pesado demais, apesar de bem escrito. E sempre me perguntei do por que montá-lo, apesar da ficha técnica já ser motivo de sobra. Mas na semana passada, quando fizemos uma leitura com o elenco todo, as peças se encaixaram, o sentido do texto ganhou uma amplitude aos meus olhos e eu entendi porque vou fazer esta peça, além do fato de querer me divertir um pouco mais, obviamente. Essas coisas acontecem no teatro, num dia você acorda e pensa estar fazendo uma coisa boa de verdade. No outro você tem vontade de enfiar sua cara na terra e só tirar depois da estréia. Uma hora tudo se ajeita, claro. No final da tarde vou para o ensaio, e por hora, as coisas estão todas no lugar.

acima a foto do Pereio ( a "voz" do espetáculo) ainda concentrado após a última leitura. E abaixo dois vídeos: conforme a noite foi progredindo, a situação foi piorando...
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